A criação de uma reserva qualitativa de vinho do Porto, a destilação de crise e campanhas de promoção foram propostas aprovadas pelo conselho interprofissional da Região Demarcada do Douro para atenuar os efeitos da crise pandémica.

Douro

«Foram acordadas quatro medidas de comum acordo entre a produção e o comércio para tentar suster o impacto da crise», afirmou à agência Lusa António Lencastre, da Federação Renovação do Douro – Casa do Douro, que representa a produção duriense.

O plano foi aprovado pelo conselho interprofissional do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) e inclui medidas como a criação de uma reserva qualitativa de vinho do Porto, a destilação de vinhos de mesa, a baixa do IVA intermédio e campanhas de promoção dos vinhos.

As vendas de vinho estão em queda por causa da pandemia e arrastadas pela paragem do turismo, da restauração e hotelaria e pelo fecho dos mercados internacionais. «Como este ano prevemos que haja uma quebra de benefício e para que essa quebra não seja tão acentuada, nós promovemos a produção de uma percentagem maior de vinho do Porto, tentando fazer com que a quebra em relação ao ano passado seja reduzida, e esse vinho fica guardado», explicou António Lencastre.

Ou seja, apesar das quebras nas vendas, o Douro poderá manter uma produção idêntica à do ano passado, mas o vinho fica guardado e, todos os anos ao longo da próxima década, o conselho interprofissional decide quanto desse vinho pode ser introduzido no mercado.

O benefício é a quantidade de mosto que cada viticultor pode destinar à produção de vinho do Porto e representa uma importante fonte de receita para os durienses. Em 2019, foram beneficiadas 108 000 de pipas (550 litros cada) de mosto, menos 8 000 do que no ano anterior.

O plano aponta ainda para a chamada destilação de crise, ou seja, mandar para destilação os vinhos DOC (denominação de origem controlada) que não se estão a vender, e a «preços que ajudem a pagar os custos de produção» nesta região de montanha. A queima será sempre, segundo o dirigente, «uma medida voluntária» para o produtor. Depois, pretende-se também fazer «uma reprogramação do plano de promoção» que seja voltado para «o incentivo ao consumo que se perdeu neste tempo» e aposte nos mercados nacional e internacional.

Segundo António Lencastre, a quarta medida «é de incentivo ao consumo» e passa pela «redução do IVA intermédio do vinho», dos 23 para os 13%. Para sustentar financeiramente as medidas, o responsável apontou a parte que caberá à região dos 10 milhões de euros anunciados pela ministra da Agricultura para apoiar o setor vitivinícola, as verbas do saldo de gestão do IVDP, superiores a 10 milhões de euros, e referiu ainda o apoio disponibilizado pela Comunidade Intermunicipal (CIM) do Douro.

No âmbito do pacote de 20 milhões de euros anunciado pela CIM para ajudar a região, inclui-se a medida Douro + Crédito que terá alocados três milhões de euros e se destina a conceder um apoio indireto aos 25 mil produtores de vinho da região.

«Com tudo em conjunto conseguiremos levar isto para a frente», afirmou António Saraiva, da Associação de Empresas de Vinho do Porto (AEVP). O responsável disse à Lusa que a aplicação das medidas está dependente do apoio financeiro por parte do Estado. «Vamos comprar uvas que não precisamos e pagá-las aos viticultores, vamos comprar aguardente que também não precisamos para fazer vinho do Porto que vai ficar imobilizado. Podemos fazer esse esforço mas, pelo menos, temos que ter uma garantia do Estado», referiu. Ou seja, acrescentou, as empresas reclamam que o Estado contribua, por exemplo, com «uma bonificação das taxas de juro».

O conselho interprofissional é um órgão de representação paritária da produção e do comércio competindo-lhe a gestão das denominações de origem e indicação geográfica da Região Demarcada do Douro.

Para além do presidente do IVDP, Gilberto Igrejas, que representa o Estado, o órgão é composto pelos dois vice-presidentes e 20 representantes da produção e do comércio distribuídos pelas duas secções especializadas (Porto e Douro).

FONTE: Lusa